sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

me dá tua mão que eu sei que é dela que nascem as cores que eu preciso.
rabisca teu traço certo no meu rosto.
desenha tua paisagem nas minhas coxas
e depois pinta de verde-púrpura-carmim
os pássaros, os peixes, o gelo, as raízes e as amoras.
e inventa outras cores para descobrir as tatuagens que tenho em branco.
me dá tua mão que eu preciso logo.


__________________________________________________


epílogo


sonhou com o fim do mundo. de novo.
acordou cansada.
não pelo sonho, mas pelo amor.
não cansada, mas magoada, doída.
uma raiva estúpida de si mesma.
cristã, diriam.
na verdade, ontem, ela disse a deus que não aguentaria.
egoísta como de costume.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

[what kind of heart would a blind man choose?] lhasa



o esforço é seguir em linha reta.
sem fragmentações. sem dor.
eu não quero mais um corpo enterrado na neve.
escondido do tempo. um corpo despedaçado.
eu não quero mais sentimentos amortecidos, semblantes desfigurados.
não quero ter que carregar na alma o peso dessa outra alma.
eu quero ver claro. lembrar de cada gesto, traço, cor, cheiro teu.
quero te olhar nos olhos, me despedir e manter somente a brisa, a essência e o sabor [camomila e mel]
eu não vou doer. eu não vou te guardar.
[e não quero ser doída]
eu vou largar tua mão, te arrancar da pele, te ensinar o caminho de volta e saborear o escorregadio distanciamento.
e devo ainda saber que não sou linha reta.
e contorno e retorno e volto sempre a esse lugar onde há amoreiras, uma grossa camada de gelo e corpos enterrados. [cemitério branco]

Deus há de me dar sabedoria e uma pá.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

vim morrer aqui:
no gelo.
onde é o meu lugar.
escondida entre as amoreiras
dos jardins sem donos
como os gatos fazem.