segunda-feira, 19 de outubro de 2009

[what kind of heart would a blind man choose?] lhasa



o esforço é seguir em linha reta.
sem fragmentações. sem dor.
eu não quero mais um corpo enterrado na neve.
escondido do tempo. um corpo despedaçado.
eu não quero mais sentimentos amortecidos, semblantes desfigurados.
não quero ter que carregar na alma o peso dessa outra alma.
eu quero ver claro. lembrar de cada gesto, traço, cor, cheiro teu.
quero te olhar nos olhos, me despedir e manter somente a brisa, a essência e o sabor [camomila e mel]
eu não vou doer. eu não vou te guardar.
[e não quero ser doída]
eu vou largar tua mão, te arrancar da pele, te ensinar o caminho de volta e saborear o escorregadio distanciamento.
e devo ainda saber que não sou linha reta.
e contorno e retorno e volto sempre a esse lugar onde há amoreiras, uma grossa camada de gelo e corpos enterrados. [cemitério branco]

Deus há de me dar sabedoria e uma pá.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

vim morrer aqui:
no gelo.
onde é o meu lugar.
escondida entre as amoreiras
dos jardins sem donos
como os gatos fazem.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Dia nublado: dia cinzento

fico
de mãos bobas
esperando o leiteiro

o gato de uma orelha
lambe a pata cinza

e ardem brasas em chamas

lá fora, vão ficando amarelinhas
as folhas da trepadeira
uma fina fita de leite
embaça garrafas vazias na janela

nenhuma glória provém

duas gotas se equilibram
numa verde envergada
haste da roseira na casa ao lado

ó se arca de espinhos

o gato afia as garras
o mundo gira

hoje
hoje não irei
desiludir meus doze engalanados examinadores
nem cerrarei meu punho
na ironia do vento.

[decisão, Sylvia Plath]